
Perdoa minha incoerência e a mania de repetição. Não tenho coragem de fazer afirmações diretas e termino por dar voltas em torno do mesmo ponto. Quis fazer pedidos absurdos, daqueles que fazemos quando queremos um ombro pra nos escondermos do mundo, mas apelos desesperados nada mais seriam que o pedido de mais uma promessa abstrata. Tenho medos incuráveis e uma dor de cabeça crônica que visita de tempos em tempos, já não penso no sentir como antes, parte de mim se dissolveu n'algum lugar inóspito e há pouco decidi procurá-la. As pessoas tropeçam e ralam os joelhos, então choram como se toda dor do mundo estivesse impregnada em cada célula e precisasse se libertar para serem poupadas da tragédia. Existe um momento único entre tantos outros momentos únicos, e nele nos vemos sozinhos no escuro, então pedimos para por favor, por favor, alguém nos salvar. Você provavelmente encontraria a saída sozinho, com esse ar que debocha das preocupações mundanas. Mas, veja bem, eu não. Me entrego à escuridão como quem transborda por qualquer excesso. Me perdi em devaneios tantas vezes que até hoje não sei responder se encontrei o caminho de volta, e por mais triste e desolador que isso seja, creio que a resposta é não. Meus passos são incertos e qualquer erro de percurso me oscila, você sabe porque decifra as palavras que nego. Finjo que tudo isso é um equívoco teu porque abismos não me são permitidos, então eu calo. Não deveria lhe dizer um terço das palavras que saem da minha boca, mas acontece sem que eu me dê conta. Teus olhos me tiram confissões absurdas e belas, você finge que não sabe, eu finjo que não digo. Me fiz ilusão só para poder viver a realidade sem consequências dolorosas, a verdade é que não sei se existe espaço dentro de mim para mais tropeços. Bonita disse que ainda estou frágil e receio dizer que na verdade sempre estive destinada a virar pó.
Só queria dizer que há esse momento entre tantos outros momentos em que eu estava no escuro e não havia nada além de um par de olhos que tentava enxergar e mãos que tateavam o invisível, então você aparece com meia dúzia de devaneios e teorias sobre porque o mundo é mundo e como lidamos com todas essas coisas para não nos atirarmos do décimo andar. As palavras retornaram gradativamente, como se estivesse aprendendo cada sílaba e significado pela primeira vez e com anseio de interpretações erradas, mas agora já não preciso me explicar, tudo está tão além que qualquer tentativa de traduzir incoerências seriam vãs e equivocadas. Existe aquele momento entre tantos momentos e nos vemos entre abismos de perdição e liberdade, não há retorno gosto demais do extremo para fugir. Você foi o abismo que escolhi me atirar.G.